Morre Christmas
Naquele ano, tínhamos todos virado reféns. Entre janeiro e dezembro, as ruas ficaram desertas. Entre as paredes de casas e apartamentos, a solidão se instalava mesmo onde vivia mais de um coração. Entre quem partia e quem ficava, a morte rondava por detrás de máscaras que iam ficando cada vez mais caras. Entre discursos sérios e falácias, muitos sofriam num silêncio que gritava.
Em setembro de 2020, a Covid seguia se alastrando por todo o planeta Terra, exterminando famílias inteiras e assustando povos e nações. Enquanto nós seguíamos, driblando o vírus mais temido deste século, deixamos passar um vírus do século passado e, distraídos, levamos uma goleada já nos últimos minutos do segundo tempo. Ganhamos do Covid, mas perdemos pro HIV.
Nenhum de nós imaginaria, porque há muito que o melhor tratamento do mundo estava bem aqui, dentro das fronteiras de um país onde o mundo todo se encontrava.
Entre o teste rápido e a primeira consulta dele, eu segui com uma certeza que unia razão e coração - o três sempre sendo menos que quatro: HIV sempre teria uma letra a menos que AMOR.
De outubro a dezembro, ele experimentava seus melhores dias: fazia aniversário, celebrava o nascimento de Jesus Cristo desde que se entendia por gente. e, naquele ano, dávamos os primeiros passos rumo ao quarto ano do nosso encontro. Agora, ambos concursados, poderíamos realizar o sonho de morar juntos, viajar juntos, crescer juntos. Tão logo passasse a tempestade estava caindo desde o inícioda pandemia. "Ninguém mais morre de AIDS", afinal. Nós realmente acreditamos que o ano seguinte seria só alegria.
Dois anos e dois meses atrás, acabei descobrindo que a AIDS ainda era assassina. Justo no Natal.
Morre Cristmas.
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